Se o lendário Raul Seixas cantou que nasceu há 10 mil atrás, ele deve ter encontrado os grupos de nômades que transitavam pelos territórios do Cariri na Paraíba. Os paleoíndios deixaram inscritos nas paredes dos matacões nos lajedos os registros de que se dividiam para realizar o trabalho, obter o sustento e fazer os rituais.
Raulzito deve ter enterrado alguma botija cheia de joias e ouro e jamais teria revelado onde. E pode ter, inclusive, se tratado com Pai Mateus, o curandeiro do lajedo, pelos idos do século 18. Mas ele não conseguiria ter acompanhado as explosões de lava e cinzas na cratera de um vulcão há 23 milhões de ano, na Bacia Terciária de Boa Vista. Isso, não.
É claro que a brincadeira com o roqueiro é literária, mas as histórias do Cariri são inteiramente verdadeiras. Confira na terceira reportagem da série Paraíba 4X4 Cantos, produzida pelo Jornal Correio da Paraíba em parceria com a concessionária J. Carneiro, Zarinha Centro de Cultura, Energisa e Cariri Expetition.
Havia uma notícia de que uma botija teria sido encontrada em uma cidade do Cariri Paraibano, por volta de outubro de 2014. Essas botijas eram latas ou potes onde os fazendeiros, comerciantes e mesmo os cangaceiros escondiam seus “tesouros”. Fomos verificar o boato e chegamos a uma das cidades mais antigas da Paraíba, cujo nome não será revelado por solicitação do caçador de botijas que guarda o tesouro encontrado. Sim, o boato era verídico. Na botija havia joias, moedas antigas e relógios.
O Caçador de Botijas, como será chamado daqui por diante, pediu para que não revelassem seu nome, de maneira alguma. O motivo? Vai desde um cuidado natural para que ele não seja procurado por pessoas indesejáveis quanto um certo respeito às lendas que envolvem as histórias de botijas no Nordeste brasileiro.
"Quando alguém arranca uma botija tem que se mudar da região. Se permanecer morando na casa onde foi encontrada morre", acredita o Caçador. As histórias de botijas datam dos primórdios da colonização do Nordeste. A região onde atualmente é a Paraíba começou a ser habitada pouco depois da virada do século 17. Nas primeiras décadas de 1600, as terras do Cariri eram usadas como currais de gado de fazendeiros da Capitania de Itamaracá, um território que começava na linha imaginária do Tratado de Tordesilhas e estendia-se até a Baía da Traição, na Paraíba, ao norte e até Igarassu, em Pernambuco, ao sul.
Em 1649 há registros de portugueses habitando o Cariri, uma época quando não havia bancos onde se guardar o dinheiro, nem segurança, estando os fazendeiros sujeitos a saques. Desde então vem o costume de guardar em potes os lucros resultantes das exportações da cana de açúcar e enterrá-los onde apenas o dono da fazenda saberia onde estava.
A maior ameaça para os moradores eram os cangaceiros. O período do Cangaço foi marcado pelo temível bando de Lampião e Maria Bonita nas décadas de 1930 e 1940, mas iniciou muito antes. Os livros de história registram atuação de cangaceiros por volta da década de 1770 e citam José Gomes, o Cabeleira, líder pernambucano de um bando de uns 30 homens que planejavam atacar o Recife e o fizeram em 1773. Sua história foi contada por Franklin Távora, inaugurando o romance regionalista no Brasil no livro “O Cabeleira”, de 1876.
As botijas eram, enfim, a solução para evitar-se o saque às riquezas acumuladas. Elas eram enterradas nos chãos das casas, escondidas nas paredes, ou até nos matos. “Os capitães faziam um sinal no local onde o tesouro estava enterrado que só eles sabiam e quando morriam subitamente a informação ia junto para o outro mundo”, contou o Caçador de Botijas.
Muitas vezes, essas vozes de outro mundo ecoam nos sonhos de cidadãos obcecados em achar alguma botija e enriquecer. “Eu mesmo já sonhei diversas vezes e fui atrás, mas não encontrava nada”, afirmou nosso Caçador. “É aí que mora o perigo. Eu já conheci gente que achou uma botija boa se mudou pra Campina Grande e hoje a família é riquíssima. Mas já ouvi falar de gente que ficou na casa e morreu”.
Enquanto o Caçador mostrava os relógios de ouro e diamantes, um terço italiano de prata, as correntes de ouro, moedas que estavam dentro da botija encontrada, ele revelou: “Essa estava na parede de uma casa e foi descoberta quando foi feita uma reforma”.
No Capítulo 2 da reportagem "Paraíba 4X4 Cantos", contamos que Chiquinha Mourão, a zeladora da capela da Fazenda Acauã em Aparecida, no Sertão, disse que viu duas botijas sendo arrancadas do chão da capela e afirma que há mais ouro enterrado ali.
Em São João do Cariri o professor Nivaldo Maracajá conta que havia um “sinal da botija” em um dos rochedos da Muralha do Meio do Mundo. “Mas escavaram e não encontraram nada”. Ele disse também que muitas vezes os próprios cangaceiros escondiam o que roubavam e, quando iam buscar, não encontravam mais a botija. Saíam furiosos à procura de quem os teria roubado e matavam quem fosse suspeito.
Segundo nosso Caçador de Botijas não tinha tantas coisas na lata enferrujada encontrada. Ele ainda precisa mandar avaliar o material. “E o senhor tem medo de perseguição de alguma alma penada?” “Que nada! Eu tenho medo é de algum vivo que queira me roubar!”
Relatos de botijas, dos Velhos Cariris e do povoamento da região são encontradas no acervo da biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri, onde mais de 600 livros trazem a história local. A sede do Instituto é no Sobrado dos Árabes, no centro da cidade, e atende turistas e pesquisadores interessados nessa história.
Em 1985 foi concluída a obra de ampliação do Aeroporto Internacional de João Pessoa Presidente Castro Pinto. Segundo o arqueólogo Djair Fialho, grande parte do granito usado na obra é originário do Lajedo de Pai Mateus. Fialho nasceu e viveu próximo ao Pai Mateus e na época, nem ele, nem o proprietário da Fazenda Pai Mateus ou outros moradores sabiam da importância geológica e arqueológica da formação rochosa que leva o nome de um antigo curandeiro que morou embaixo de uma pedra.
O lajedo de Pai Mateus é um grande bloco de granito com 1,5 quilômetro quadrado no formato de um prato de sopa invertido equilibrando em cima mais de 100 matacões (rochas grandes arredondadas) que chegam a pesar 45 toneladas. Parece que alguém os colocou ali. Voltaire diria que foi o próprio Micrômegas!
“Na realidade as rochas sofreram e continuam a sofrer efeitos do vento, da chuva, variações da temperatura e vão, aos poucos, adquirindo a forma arredondada. Esse formato só é encontrado no mundo em desertos da Austrália e da Namíbia. Observando esse processo concluímos que o Cariri não era seco como é hoje, havia muito mais chuva”, detalha o geógrafo e professor do curso de Ecologia da Universidade Federal da Paraíba, Leonardo Meneses.
Há matacões no Pai Mateus que emitem sons de sino quando são batidos com outros pedaços de pedras menores. "Ainda não há uma explicação científica para esse fenômeno. Alguns especulam que é a presença de óxido de ferro na rocha, o que não procede, pois existem rochas com muito mais ferro na composição e não fazem esse som. O mais provável é a posição da rocha no solo, onde devem ter ficado vãos pelos quais reverberam as vibrações do conjunto de minerais", argumenta Leonardo Meneses.
Por estas e outras razões, como a ocorrência de pinturas rupestres, a extração de granito do lajedo e de outros locais ao redor deveria parar. E de fato parou em 2004, quando foi instalada a Área de Proteção Ambiental (APA) do Cariri. Contudo, o percurso até esta conquista foi longo.
O quadro começou a mudar em 1998, quando um geólogo da Petrobras desembarcou na Paraíba depois de percorrer 57 países. Eduardo Bagnoli (falecido há três anos) é um nome conhecido e reverenciado atualmente por todos os moradores de Boa Vista a Cabaceiras. E não é um exagero afirmar “todos”. Com sua experiência, o interesse pelo que a natureza demorou milhões de anos para formar e o respeito pelos moradores, Bagnoli foi perspicaz e conveniente em suas atitudes para iniciar um processo de conservação da região.
O geólogo chegou na região à serviço pela Petrobras para examinar a produção de bentonita, um minério abundante na Bacia de Boa Vista, próximo ao Lajedo de Pai Mateus. Certo dia, pelas 11 horas da manhã, conversando com uns meninos que estavam por perto queimando macambira para preparar a ração dos animais, descobriu que tinham uns "letreiros velhos" em umas pedras, nos lajedos do Sítio Bravo, como narra o hoje arqueólogo Djair Fialho, um dos meninos abordados, na época com 13 anos:
- Não é que apareceu aquele sujeito, tal assombração, saído do nada? Disse que era geólogo e foi logo perguntando: "Garoto, o que tem lá em cima daquelas rochas?" Onde senhor? - Eu nem mesmo sabia o que era rocha! Então, ele percebendo que estava falando difícil para a gente, reformulou a pergunta. - Lá em cima daqueles lajedos tem alguma coisa de diferente ou bonita? Eu, laconicamente, falei: "Tem nada lá não, moço, só tem uns letreiros véios" -"Letreiros véios? O que são isso? Pode me levar lá?" -"Não, seu moço. Nós tá trabalhando..."
Bagnoli ofereceu ajuda para o trabalho e pediu permissão aos familiares para que os meninos o conduzissem até os tais "letreiros". Ficou extasiado ao comprovar que se tratava de pinturas e gravuras rupestres sobrepostas. Essa arte rupestre fica no matacão de entrada do Lajedo do Bravo, perto de onde os meninos trabalhavam.
Ele perguntou se havia mais desses “letreiros” e os meninos disseram que sim. Então eles passaram o resto do dia percorrendo os lajedos da região e encerraram a visita no Pai Mateus, quando Bagnoli viu que os matacões estavam sendo transformados em brita. Ele prontamente entrou em contato com o proprietário da Fazenda, o médico Crysóstomo Lucena, que disse ter negociado a venda desses granitos para construção civil, e aumentou a oferta pelo granito.
- Mas eu gostaria de comprá-lo e deixá-lo aí. Disse Bagnoli.
- Ah, isso não pode. Como eu vou vender e não entregar? Perguntou o fazendeiro.
Bagnoli explicou a importância do lajedo e pediu um prazo, o que foi concedido pelo compreensível doutor Lucena. Foi a partir dessa época que Lucena iniciou a construção do Hotel Fazenda Pai Mateus e que Bagnoli articulou com uma agência de turismo da Suécia um roteiro turístico para o local. A partir de 2000 até 2004 quase 15 mil escandinavos conheceram o Cariri.
O geólogo incentivou a continuidade dos estudos do menino Djair Fialho num colégio particular em Campina Grande, doutor Lucena transferiu sua fonte de rendimentos da extração de granito para a exploração turística e o Lajedo de Pai Mateus tornou-se mundialmente conhecido e reconhecido.
À propósito, o nome do lajedo vem de um ilustre morador, um curandeiro que viveu embaixo de um dos grandes matacões pelos anos de 1750. A cultura popular diz que ele usava xaropes de plantas e rezas e era procurado pela população para todo o tipo de tratamento. O lugar onde ele morava permanece com cama, mesa de pedra, como no desenho dos Flintstones!
Em 2004, com a formação da APA do Cariri, uma área de 18.560 hectares, mais ou menos 5 mil matacões estão protegidos. É uma das maiores unidades de conservação da Paraíba. Pela característica de uso sustentável da APA os moradores permanecem na área e, teoricamente, deveria ser promovido o uso sustentável dos recursos naturais. O problema é que até hoje não foi oficializado o Plano de Manejo da unidade. Este documento define as normas de uso da área e tem, por lei, o prazo de cinco anos para ser criado depois de estabelecida a unidade de conservação.
Pai Mateus: de APA do Cariri a Geoparque de Pai Mateus
No início do mês de dezembro de 2014 representantes do Serviço Geológico do Brasil (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais – CPRM), visitaram o Cariri com o objetivo de dar seguimento à formação do Geoparque de Pai Mateus. Os pesquisadores percorreram trilhas pelos lajedos do Bravo, Samambaia, Sacas de Lã, Manoel de Souza, Pai Mateus, Muralha do Cariri e pelos cânions do Rio da Serra.
Mas foi na Bacia Terciária de Boa Vista a maior surpresa. Ali os especialistas identificaram um minério raro, um tipo de ‘rocha vítrea’ que não foi descoberta ainda em nenhum outro lugar do Brasil (pillow lavas, que se resfriaram rapidamente na água). Sabe-se que em Fernando de Noronha é possível que ocorra pela formação vulcânica, mas devem estar submersas.
Conforme o coordenador nacional do Projeto Geoparques do Serviço Geológico do Brasil – CPRM, Carlos Schobbenhaus, o processo de formação das pillow lavas revela como era a Bacia de Boa Vista há 23 milhões de anos: um grande pântano onde uma cratera vulcânica expelia cinzas e lavas. As cinzas soterraram o pântano, petrificaram a vegetação e deram início à formação do minério bentonita. As lavas respingadas diretamente na água resfriaram rapidamente e vitrificaram. Foram soterradas pelas cinzas e, 23 milhões de anos depois, vêm à tona pelas escavações nas minas de bentonita. A datação foi comprovada em pesquisas feitas pela Petrobras a partir de pólen fossilizado encontrado na Bacia.
“Não temos palavras para expressar o significado desse achado. A constituição de um geoparque nesta região é fundamental pela importância científica, arqueológica e paleontológica dos lajedos e da Bacia de Boa Vista”, ressalta Schobbenhaus.
O geoparque é uma associação de geoconservação, de desenvolvimento sustentável, de geoeducação e locais propícios para realização de pesquisas científicas. Existem 111 geoparques em todo o mundo e um único no Brasil, o Geoparque Araripe, no Ceará. Segundo Carlos Shobbenhaus, a vantagem do geoparque é ser uma área aberta. "Toda a atividade local permanece, as pessoas continuam em seus sítios, levando a vida normalmente".
A área cogitada para o Geoparque de Pai Mateus deverá chegar a 12 mil hectares que, somados aos 18 mil da Área de Preservação Ambiental (APA) do Cariri, ampliará a área preservada para 30 mil hectares. “Nesse momento inicial até a concretização dos planos precisamos do apoio da comunidade, o que já temos, e da atenção dos gestores ambientais e governantes. A Paraíba terá o segundo geoparque do Brasil e a dimensão dessa conquista deve ser compreendida”, salienta o arqueólogo Djair Fialho que conduziu o grupo de cinco pesquisadores formado por Carlos Schobbenhaus, Geysson Lages e Rogério Valença Ferreira, da CPRM, Marcos Nascimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Leonardo Figueiredo Meneses, da Universidade Federal da Paraíba.
Cada lajedo do Cariri tem a sua particularidade, sua localidade, sua beleza incomum. O interessante em Cabaceiras, em São João do Cariri e em Boa Vista é a constante passagem do homem primitivo nessas áreas. Entenda-se aqui por primitivo uma referência a “primeiros”, e não “irracionais”. Eram grupos de pessoas que viviam em sociedade igualitária, dividiam o trabalho em busca do sustento, produziam instrumentos que facilitavam os serviços diários, eram espiritualizadas e desenvolviam sistemas de comunicação.
"Estamos falando de pessoas que passaram pela região há 12 mil anos ou mais, que percorriam os lajedos e cruzavam territórios em busca de água e alimento. Eram organizadas, observavam o cosmos e praticavam a espiritualidade a qual deviam sentir alguma presença", analisou o arqueólogo Djair Fialho, a partir de estudos realizados na região.
No lajedo do Bravo os elementos que comprovam essa tese são inquestionáveis, de acordo com o arqueólogo. O lugar foi habitado por quatro diferentes grupos em diferentes períodos. Prova disso são as gravuras e pinturas rupestres das tradições Agreste, Nordeste e Itacoatiara, e o polimento nas pedras.
"Não há vestígios sobre quando o polimento teria sido feito, mas era característica de um grupo distinto. O grupo que fez a pintura Agreste provavelmente viveu por volta de 9 mil anos atrás. A tradição Itacoatiara, a mesma da Pedra do Ingá, é de 2 mil a 6 mil anos e está relacionada ao culto das águas e existe em toda a América do Sul, sempre à beira de tanques, lagos ou rios. E a Nordeste é a mais antiga, datada de 16 mil anos e também é encontrada na Pedra da Boca", falou o arqueólogo demonstrando a presença de todos esses grupos no Bravo.
Em uma caminhada pelo Lajedo do Bravo é possível identificar lugares onde as tintas eram preparadas, trilhas de pedra polida, locais usados para reprodução humana e para rituais. Entre eles está a furna Tapuia, no alto do lajedo, onde ainda permanece o altar para sacrifícios humanos. Ali foram encontrados ossos com sinais de terem sido decepados, guardados como em um cemitério indígena.
A tradição Agreste também está no Lajedo Manoel de Souza, um dos mais expressivos da Paraíba neste tipo de pintura. Ali está inscrito algo como se fosse um mapa pelo qual, segundo Djair Fialho, é possível identificar referências aos lajedos do Bravo, Corredor, Samambaia, demarcações de abrigos e locais com água, o lajedo de Pai Mateus, e as Sacas de Lã.
Pedra sobre pedra
As Sacas de Lã são uma experiência divertida na subida, obrigando o aventureiro a rolar deitado no ~vao estreito entre duas lajes para chegar ao outro lado e continuar a escalada. São nitidamente uma falha geológica, onde, de um lado, as rochas parecem empilhadas e, de outro, as rochas se elevam. Pelo meio passa o intermitente rio da Tapera, o qual, quando chove, enche e forma um lago em frente aos rochedos. Quando está seco a areia fina e branca do fundo aparece, originada do desgaste natural das pedras.
Em São João do Cariri no Sítio Picoito, a 47 quilômetros de Boa Vista, outras pinturas rupestres aparecem com figuras geométricas datadas entre 400 a 2 mil anos atrás na Muralha do Meio do Mundo. Algumas pessoas acreditam que a formação rochosa desta muralha natural atravessaria a Paraíba do Rio Grande do Norte a Pernambuco. Mas o geógrafo Leonardo Meneses tem mais cuidado em afirmar que não há comprovação científica. “Pelos mapas não há uma ‘linha’ contínua. A muralha é um dique de granito, resultado de do resfriamento do magma em fraturas de rochas mais antigas e comum na Paraíba”, diz o pesquisador.
Olhando-se de um dos pontos do alto da muralha percebe-se que o dique é comprido e as rochas afloram como em um tobogã. "Ouvi dizer que em uma revista semanal de 1984 saiu uma reportagem afirmando a tese da extensão do Rio Grande do Norte a Pernambuco com base em estudos de um geólogo americano, mas confesso que preciso encontrar essa edição", pondera o professor Nivaldo Maracajá, de São Joao do Cariri.
Este sítio também sofreu pela extração de granito até 1990, quando foi feito um acordo entre os proprietários e o Ministério Público Federal. Próximo dali, em Serra Branca, a Pedra do Letreiro no Sítio Porção também impressiona pela quantidade e nitidez das gravuras rupestres itacoatiaras. Entre as rochas, uma grande coruja suindara protegia seu ninho dos fotógrafos interessados nos registros arqueológicos.
Cabaceiras é uma cidade divertida, alto astral, colorida e cheia de personagens com histórias pra contar. Se duvidar, é até mais famosa do que Gramado, na Serra Gaúcha, onde ocorre o Festival Nacional de Cinema, pois é a terra da Roliúde Nordestina. Atrai cineastas, produtores e documentaristas da Paraíba e do Brasil inteiro pelas suas peculiaridades e por ser próxima aos cenários belíssimos de Pai Mateus. Segundo Wills Leal, presidente da Academia Paraíbana de Cinema, na cidade foram rodados 52 filmes entre longas e curtas-metragens sendo o mais famoso o “Auto da Compadecida” (1999).
Na "Casa Bode Rei", uma típica bodega do interior do Nordeste, o velho Zé Di Cila mostra com satisfação recortes de jornais onde foram publicadas suas entrevistas sobre a atuação no filme que levou Cabaceiras para o circuito nacional de cinema. "Eu tava aqui, tranquilo, quando chegaram afobados dizendo que estavam me chamando lá no cinema. Que cinema, aqui nem tem cinema! Era onde estavam filmando a cena do padre que estava sendo interpretado por Rogério Cardoso. Mas ele não pode vir e precisavam de um padre com urgência. Eu não sou nenhum santo, mas quebrei o galho!", conta José Nunes de Araújo Melo que substituiu Rogério Cardoso em uma cena.
Depois disso ele fez outras participações como figurante nos filmes Canta Maria, Quinha foi ao Céu, Raspadinha e Cabaceiras Paraíba. Sua história se mistura com a da cidade. A maior parte das peças do Museu de Cabaceiras era de Zé Di Cila. Hoje ele cuida da mercearia e se dedica a promover a cidade em eventos de turismo ou culturais, sempre com a batina e o chapéu que o "consagrou" na Paraíba.
A Roliúde Nordestina foi uma ideia autêntica do cinéfilo Wills Leal, um meio de chamar a atenção para o que foi despertado no local a partir das filmagens da obra de Ariano Suassuna. “Na Roliúde Nordestina já foram rodados 52 filmes, sendo nove longas. O mais famoso, além do Auto, é Cinema, Aspirina e Urubus (2005), que representou o Brasil no Oscar em 2007”, lembrou Wills Leal.
“A Roliúde Nordestina é muito criativa. Tem um letreiro enorme no alto de um morro, como em Hollywood. A cidade valoriza esse potencial e isso é ótimo”, considera Lis Soares, mineira que estava visitando a região com o marido.
Produção de couro é vendida em outros estados
Em torno de 8 mil peles de caprinos e bovinos saem da Cooperativa dos Curtidores e Artesãos em Couro de Ribeira, a Arteza, (Ribeira, distrito de Cabaceiras) e são vendidas no Ceará, em Pernambuco e na Bahia. Os moradores vivem da produção de couro e são quase todos, senão todos, galegos. É uma característica herdada dos holandeses na época em que habitaram a Paraíba, no século XVII.
A produção de couro recebeu o incentivo do programa Empreender Paraíba, do Governo do Estado e a produção dobrou em um ano. “Temos 74 associados, mas os familiares também trabalham e indiretamente mais pessoas são beneficiadas”, considera Ana Paula Castro, gerente cooperativada.
A pele passa por um longo processo até ficar pronta para o artesanato. Luís Fernando Sousa Meira, um galego associado, trabalha há 10 anos na cooperativa e explica: "Demora uns três dias pra preparar a peça. Ela chega salgada e ainda com pelos e às vezes carne e gordura e precisa ser hidratada, tratada, secada e amaciada. Sai de uma máquina pra outra, roda nos fulões (cilindros de madeira) por até um dia, e finalmente vai para o acabamento. Quando está pronta nem parece aquela pele que recebemos!" A peça de couro de cabra é vendida por R2,40 o centímetro quadrado o que fica, em média, R$ 25,00.