O sertanejo está vigilante acerca da transmissão da cultura, da preservação das riquezas naturais e de olhos abertos quanto ao mais extraordinário registro de pegadas de dinossauros do Brasil. Os valores em questão superam as notas de cinquenta ou cem reais e tornam-se impagáveis na busca por conquistas que se tornarão herança para as gerações seguintes: conservação do espaço natural, continuidade da cultura original, audácia na defesa dos ideais.
Uma das maiores satisfações dos homens e das mulheres do Sertão é mostrar as peculiaridades da terra aos forasteiros. Foi nessa região onde preparamos a segunda reportagem da série “Paraíba 4X4 Cantos”.
Do alto da Pedra do Tendor a visão da Depressão Sertaneja e da Serra de Teixeira é clara. Lá embaixo no solo plano estão os montes pontiagudos comprovando que um dia o relevo era mais elevado e plano, e foi-se desgastando com o tempo. São os “inselbergues”, testemunhas desse efeito que levou à depressão. Tendor ou Tendó, a força do sotaque sertanejo imprime sua marca no Sertão Paraibano.
O que estaria guardado por lá, sobre o solo denso em rochas cristalinas, com pouca profundidade e, portanto, precário para reter a água, a não ser em fendas entre as rochas do subsolo?
Esses pensamentos brotavam ao contemplarmos o vasto horizonte no alto do Tendó e de modo algum pensávamos em acabar no mais profundo, quente e úmido buraco que jamais tínhamos visto: o Buraco do Véio Ciço.
Ciço é como Tendó, quer dizer, é um jeito abreviado de chamar Cícero, o cidadão do Brejo que pelos idos de 1940 apareceu em um povoado do Sertão sem dar explicações e sumiu depois de escavar um túnel de mais de 100 metros rocha adentro. Isso aconteceu próximo de Maturéia, na comunidade de São José de Belém. O local foi escolhido conforme as indicações de um aparelhinho que Seu Cícero carregava. O túnel foi construído durante três meses, por trabalhadores que o Véio Ciço contratou. Num belo dia, ele dispensou a todos e seguiu trabalhando sozinho. De repente, sumiu. O túnel está lá, intocado pelos moradores da comunidade, provando que Véio Ciço encontrou o que procurava, seja lá o que fosse. Muito provavelmente uma grande pedra preciosa.
A experiência de percorrer a caverna é singular, mas a felicidade de rever a luz do dia na saída é indescritível. Pelo mesmo lugar por onde se entra, se sai. O túnel é escuro, quente e úmido, morada de aranhas de cavidade e morcegos. Termina quando Velho Cícero deve ter encontrado sua pedra preciosa. Pelo vestígio da cavidade que ficou na parede, percebe-se que a pedra deveria ser grande.
Uma turma de astrofotógrafos acabara de chegar ao Casarão do Jabre, um hotel nas imediações do ponto mais alto do Estado da Paraíba, o Pico do Jabre, com 1.197 metros de altitude. Todos desceram da van com os equipamentos à mão. O trajeto até ali teria rendido boas fotos, mas a ansiedade era pelo click da lua que eles tirariam naquela noite fresca, banhada pela luz do próprio satélite.
“Essa região é bastante frequentada por grupos de astrofotógrafos da Paraíba, o clima é ameno, o céu é limpo na maior parte do ano e a região é uma das mais escuras do Estado”, indica Dalvanete Rodrigues Dantas, gerente do Casarão, na Serra do Teixeira.
Dalvanete Dantas procurou seu telefone celular para ligar para o astrofotógrafo Marcelo Zurita, integrante da Associação Paraibana de Astronomia, para comentar que os colegas haviam chegado. Digitou, mas o sinal era fraco. Ela caminhou um pouco, procurou outra posição e nada, sem sinal. Tentou novamente... Desistiu. Embora em suas costas o Pico do Jabre estivesse visível com suas imensas antenas de telecomunicações, Dalvanete não conseguia completar a ligação local por falta de conexão: um paradoxo.
“Isso acontece com todos os meios de retransmissão, eles servem apenas como um ponto para retransmitir as microondas das operadoras e lançam o sinal à longa distância”, explica Percival Henriques, presidente da Associação Nacional de Inclusão Digital (Anid). Segundo ele, “não há interesse por parte das grandes empresas de telecomunicação em criar programas de telecomunicação que atendam regiões com poucos habitantes, como é o caso no Pico do Jabre”.
De fato, o acesso à internet usada no Casarão é transmitido via rádio, por um pequeno provedor. “É comum esse provedor ter que buscar o sinal de longe e, por isso, não consegue oferecer um acesso com mais capacidade de transmissão de dados. A internet fica lenta e cara”, analisa Percival Henriques.
Comunidade almeja formação do Parque Nacional da Serra do Teixeira
O Pico do Jabre fica ainda mais alto contando até a ponta das antenas instaladas no topo. Algumas delas já foram desativadas e substituídas, mas as estruturas antigas permanecem como um lixo tecnológico. O lugar é uma Unidade de Conservação Estadual e o esforço dos habitantes da região é que ele esteja incluído na categoria de Parque Nacional.
“Desde 2009 temos um estudo concluído e enviado para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal pelo qual essas Unidades de Conservação são formadas. A existência do Parque Nacional Serra do Teixeira irá ampliar a área de preservação e garantir a proteção de uma área onde há uma biodiversidade única no Brasil”, Ressalta Joaquim Neto, coordenador da ONG SOS Sertão.
Subindo o Pico, a vegetação da caatinga dá lugar a espécies vegetais típicas da Mata Atlântica, por causa das condições do meio ambiente. Uma ilha verde no semiárido. Na área proposta para a ocupação do parque, de 60 mil hectares, os estudos registraram 132 espécies vegetais sendo seis delas incluídas na lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção. (Fonte: Estudo para Subsidiar a Criação de Unidade de Conservação de Proteção Integral na Serra do Teixeira – Paraíba).
“Uma coisa é certa: para termos força no Ministério do Meio Ambiente para a formação deste Parque Nacional precisamos concentrar os esforços da comunidade, dos pesquisadores e, principalmente, da classe política, quem detém o poder de articulação em âmbito federal”, argumenta Joaquim Neto.
Pedra do Caboclo: chapéu de cangaceiro
A formação da rocha, olhando de dentro para fora da gruta na Pedra do Caboclo, mostra um típico chapéu de cangaceiro. O modelo de um dos chapéus usados por Lampião poderia ter sido inspirado ali. A gruta fica na área do Parque Estadual do Pico do Jabre, esconde inscrições rupestres e o local atrai observadores de pássaros.
“Cancão, gavião ripino, cinco espécies de rolinha, xexéu, casaca de couro, canário da mata, galo de campina, jacú, lambu, cordoniz, juriti, gavião cauã, andorinha, esses são os mais comuns que vemos por aqui”, revelou o condutor Paulo.
Centenas de dinossauros viveram na Paraíba há cerca de 120 milhões de anos. Animais pré-históricos tão excepcionais que não poderiam sumir desse mundo sem deixar rastros. E deixaram. As pistas mais expressivas de pegadas de dinossauros no Brasil estão na Bacia do Rio do Peixe, na Paraíba, especialmente nas bacias cretáceas de Sousa e Uiraúna-Brejo das Freiras.
E não somente dinossauros deixaram pistas. Também há icnofósseis de escavações feitas por aranhas e seres que hoje seriam como as minhocas ou larvas (artrópodes e anelídeos) e fósseis de plantas, ostras e conchas, escamas de peixes e até ossos de crocodilos (crocodilomorfos). Sim, icnofósseis são remanescentes de pegadas petrificadas.
Uma fauna riquíssima em espécies habitava o que foi um grande lago salgado e hoje é uma região que enfrenta a escassez de água. Estudos revelam que já foram identificados 22 sítios com icnofósseis e 395 indivíduos dinossaurídeos nessa bacia.
Ameríndios identificaram as pegadas
No sítio Serrote do Letreiro, em Uiraúna, uma propriedade privada, uma pegada aparece circulada por inscrição rupestre. Ao redor, há diversas pegadas de tetrápodes grandes em meio a outros desenhos rupestres e gravuras em baixo relevo. Ou seja, se essas inscrições datam de pelo menos seis mil aos atrás, conclui-se que os homens descobriram as tais pistas há muito tempo.
Mas na Era Moderna, nos tempos do Império, o assunto intrigava os fazendeiros da região. Sem conhecimento para maiores explicações, diziam que eram rastros de emas ou de bois. Enfim, no começo da década de 1920, Luciano Jacques de Moraes, um engenheiro que trabalhava na região para o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), ouvindo sobre o assunto, se interessou em procurar tais rastros de boi. Moraes descobriu duas pistas de tamanhos diferentes que se intercruzavam em rochas do leito do rio do Peixe, na Fazenda Ilha. Ele retirou uma laje e enviou para os Estados Unidos, para análise, e jamais obteve retorno.
Depois mandou fotografias para a Universidade de Tübingen, na Alemanha, que foram recebidas pelo cientista F. von Huene. Ele descreveu a primeira pista como a de um dinossaurídeo quadrúpede e a segunda como a de um bípede.
Finalmente, em 1975, o padre, arqueólogo e geólogo italiano Giuseppe Leonardi visitou Sousa e percorreu os 704 quilômetros quadrados da bacia, tendo registrado em estudos os números citados logo acima.
Cruzamentos de pegadas de dinossauros são observada hoje por cerca de 5 mil visitantes por mês no Monumento Natural Vale dos Dinossauros, consolidado em 1996, conforme menciona a diretora do Monumento, Alesçandra Mariz. “São 40 hecaters de área preservada. Há 8 meses foi descoberto um osso fossilizado o qual foi levado para análises em Recife. A chance é de que seja de um carnívoro, o abelissauros”, informou a diretora.
São sete trilhas que podem ser observadas à pé e no museu estão expostos fósseis que foram encontrados na região, e ilustrações de quatro tipos de dinossauros mais comuns: o noassauride, o saurópode (pescoçudo), o abelissauro e o sousachnium, que ganhou o nome em homenagem à cidade.
- Via Nossa Senhora do Rosário!
- Viva!
- Viva os amigos da cidade de Pombal!
- Viva!
- Viva Daguia!
- Viva!
Com as saudações os Pontões de Pombal encerram a apresentação na procissão de Nossa Senhora do Rosário, no primeiro domingo de outubro. Os maracás presos nas lanças enfeitadas com fitas coloridas que os negros seguram marcam o ritmo da banda cabaçal: tambor, prato, fole e pífano. Na Igreja Nossa Senhora do Rosário, construída em 1721, o sincretismo exalta a santa e acende a tradição dos quilombolas dos Daniel, comunidade que vive na cidade.
Eles se apresentam em dois cordões, o vermelho e o azul, e obedecem as indicações do capitão Clóvis. Ao som do apito os pontões avançam, cruzam-se ou recuam, sempre balançando os maracás. “Se os pontões não abrem a festa, ela não acontece”, acredita o capitão. Eles dançam fora da igreja, entram com reverência, fazem a “venda”, uma saudação à Nossa Senhora do Rosário, e saem.
A Festa do Rosário de Pombal tem ainda representações negras dos Congos e o Reisado. O primeiro grupo acompanha a procissão até a igreja e visita as famílias dos moradores e, convidados a entrarem na casa, dançam e se apresentam.
O Reisado é formado por três grupos folclóricos, ritmados pelo violão, pandeiro, apito e o sapateado. Eles cantam e encenam a “Embaixada e a Guerra”. O drama “narra o que poderia ser uma revolta na corte do rei, comandada pelo secretário. O Mateus é consultado sobre a duração da guerra e verifica as horas em um relógio sem ponteiro. A sequência é encerrada com uma exaltação cívica à bandeira brasileira”, cita Verneck Abrantes de Sousa, historiador de Pombal.
Igreja do núcleo imperial no Sertão
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é uma relíquia histórica do primeiro núcleo imperial no Sertão da Paraíba.
No altar principal nenhuma figura se repete, estruturas, formas, cores, entalhes têm uma riqueza de detalhes típica do Barroco. O altar a São Sebastião é ornado pelo Barroco Rococó, o de São Miguel Arcanjo traz o Barroco Tropical e a pintura do painel da Ceia Larga, da Sala do Santíssimo, foi lavada descuidadamente e escureceu. Será restaurada. A pintura marmorizada das colunas imita a pedra.
O Cruzeiro em frente da Igreja marca a passagem do século 17 para o 18. O Cruzeiro que marca a passagem para o século 19 está caído e fica próximo da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba. E o Cruzeiro que entrou o século 20 está na entrada da cidade. O pombalense aguarda a referência que acenará ao século 21, uma era de velocidades vertiginosas que jamais afetará as tradições seculares.